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Campanha da
Fraternidade de 2008 |
D.Odilo Pedro Scherer
Bispo Auxiliar de São Paulo
Secretário-Geral da CNBB
A Campanha da Fraternidade de 2008 já tem
tema: “Fraternidade e defesa da vida”; e o
lema é: “escolhe, pois, a vida”. Este tema
assume importância sempre maior no Brasil e
no mundo em vista das ameaças e agressões
constantes à vida, o bem mais importante e
precioso sobre a face da terra.
Nas suas múltiplas formas e manifestações, a
vida é um bem impagável e indisponível; cada
ser vivo manifesta, à sua maneira, a
sabedoria e a insondável providência de Deus
Criador. Não criamos a vida, mas temos o
tremendo poder de destruí-la; e a destruição
da vida pelo descuido e a imprudência
humanas, ou pela ganância sistemática e
cega, é ofensa ao Criador. Muitas formas de
agressão ao ambiente, bem como a
interferência leviana na natureza dos
organismos vivos, coloca em sério risco a
existência da muitos seres vivos, vegetais
ou animais. Vem ao caso de perguntar: que
tipo de mundo e ambiente estamos preparando
para as gerações que virão depois de nós?!
Tratando-se da vida humana, as questões
tornam-se ainda mais preocupantes. A pobreza
extrema e a falta de políticas sociais
adequadas deixam a vida humana exposta a
situações de risco e precariedade. A
violência endêmica e o crime organizado
ceifam numerosas vidas humanas,
lamentavelmente, muitas delas, em plena flor
da juventude! Submetida à lógica do mercado
e da vantagem econômica, a vida humana acaba
valendo muito pouco. A degradação ambiental,
a contaminação e poluição das águas e do ar,
em conseqüência de políticas econômicas
irresponsáveis, desencadeiam mecanismos que
põem em risco a própria sobrevivência da
vida no nosso planeta.
É impressionante o número de abortos
clandestinos realizados todos os anos no
Brasil. São seres humanos inocentes e
indefesos rejeitados, aos quais é negada a
participação no banquete da vida. E com os
abortos clandestinos, tantas mulheres também
perdem a vida, em conseqüência de abortos
mal-feitos. Legalizar o aborto seria a
solução, para salvar a vida de muitas
mulheres? É o que alguns pretendem. Mas essa
solução seria trágica, cruel e imoral, pois
ambas as vidas são preciosas, tanto mais,
quanto menos culpa têm a pagar. A vida da
mãe e do filho precisa ser preservada. A
solução é a educação para a maior
valorização da vida humana e para
comportamentos sexuais conseqüentes com a
grande responsabilidade de transmitir a vida
a um novo ser humano.
Ameaça não menos preocupante para a vida
humana é a pretensão de legalizar a
eutanásia, uma intervenção intencional e
direta para suprimir a vida humana. O ser
humano, desde o início da história, sempre
teve a tentação de se tornar senhor absoluto
da vida e da morte; claro, é pretensão dos
fortes sobre os mais fracos. E isso não lhe
trouxe nada de bom. Só Deus é senhor da
vida, porque só ele é capaz de chamar do
nada à existência e de dar plenitude à vida
humana. Por isso escreveu no coração do
homem esta ordem: “não matarás!”
Proteger, defender e promover a vida é
tarefa primordial do Estado, sobretudo a
vida indefesa e frágil, como a dos seres
humanos ainda não-nascidos, das crianças,
idosos, pobres, doentes ou pessoas com
deficiência. É ação política por excelência,
que não poderá orientar-se pela lógica do
“salve-se quem puder”, que só beneficiaria
os mais fortes; ela requer o envolvimento
solidário de todos os cidadãos. A defesa da
vida e da dignidade dos outros seres humanos
contra toda forma de agressão, prepotência
ou aviltamento interessa a toda a família
humana; é manifestação suprema de
fraternidade.
O lema – “escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19b)
– é tomado do livro do Deuteronômio. O povo
hebreu, beneficiado pela ação libertadora e
salvadora do Deus da vida, é colocado por
Moisés diante da grave alternativa: escolher
a vida e um futuro esperançoso para si e
seus descendentes, permanecendo fiel aos
mandamentos de Deus, ou escolher a morte,
andando por caminhos de idolatria e servindo
a “deuses” fabricados para a própria
conveniência. Isso vale para a globalidade
das decisões humanas: nossas escolhas têm
conseqüências sobre a vida e o futuro. A
escolha livre e responsável do respeito aos
mandamentos de Deus e do seu desígnio de
vida significa bênção, esperança, futuro. O
desprezo ao desígnio do Deus da vida e seus
mandamentos traz a desgraça, a morte.
Esta é a grande questão posta pela Campanha
da Fraternidade de 2008, que será ocasião
para refletir sobre a complexa problemática
que atinge a vida sobre a terra, em
especial, a vida humana. Está em jogo o
futuro da vida na Terra, nossa casa comum, e
de todos os seus habitantes. Uma solução
responsável só poderá ser solidária e
fraterna, no pleno respeito ao desígnio de
Deus Criador e Senhor da vida.
16.09.2006
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