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05 Dec 2008
Dom Eurico dos Santos Veloso
“Preparai no deserto o caminho do Senhor”
(Is 40,3). Esta advertência no-la faz o
profeta Isaías na Liturgia deste segundo
domingo do Advento. O alerta vem-nos desde
os tempos bíblicos, em que o povo hebreu
esperava pelo Messias que o tiraria do
cativeiro da graça em que se encontrava, e
nos conclama a endireitarmos os caminhos
tortuoso e aplainarmos as veredas escarpadas
(Is 40,4b).
Bafeja em nossa face, inundando-nos de
graça, a inspiração divina a prepararmo-nos,
desde hoje, para o retorno de Jesus. Nessa
expectativa, no entanto, cabe-nos assumirmos
nosso papel na Igreja e na comunidade, como
discípulos de Cristo e seu missionário,
atuando determinados e convictos nessa
grande obra de evangelização. Cabe a cada
cristão ser evangelizador na família, na
sociedade, entre os amigos, no local de
trabalho, antes como exemplo pela sua
conduta, depois pela preparação que deve
buscar, a fim de que coopere nessa obra da
redenção. Assim, estaremos nos preparando e
estimulando nossos irmãos a se prepararem
para quando “então se manifestará a glória
do Senhor e todo o homem verá a sua
magnificência” (Is 40,5).
Naqueles anos bíblicos, o povo hebreu era
cativo do Império Babilônico e o profeta o
consolava, anunciando o reino de paz e de
justiça que um dia se instauraria no mundo.
Em nossos dias, o povo de Deus muitas vezes
é cativo do modernismo, pelo oportunismo,
pelo comodismo, pela insensatez, pela
impiedade, pelo destemor, por tudo aquilo
que nos priva da graça. É por isso que,
nessa preparação para o momento em que a
Santa Igreja nos propõe a meditação da vinda
do Senhor Jesus, para remir-nos do pecado,
devemos nos preparar, limpar o nosso coração
e tirar as arestas que nos remetem às
constantes fragilidades. Desta forma, de
coração puro, participando da Eucaristia,
devidamente preparados, e nos conduzindo de
acordo com os preceitos cristãos, estaremos
endireitando nossos caminhos, muitas vezes
áridos, semeando a esperança da eternidade
em Deus.
Ao clamar a libertação àquele povo sofrido
do Antigo Testamento, muito mais do que
consolar aqueles corações imersos em dor e
decepção, Isaías apelava para a necessária
conversão. E creio que, também em nosso
tempo, haja uma necessidade premente de
conversão, em todos os sentidos: no modo de
vida, na conduta pessoal, familiar e social,
no trabalho, nas palavras, inclusive na fé.
Aliás, talvez seja a partir da fé que deva
se iniciar esse processo de retorno. Retorno
ao Pai, por meio da Igreja, na formação
espiritual e dogmática, na participação dos
Santos Sacramentos e, por fim, no exemplo de
vida cristã que devemos todos emanar.
Seremos “sal da terra e luz do mundo” no
meio em que vivemos e promoveremos uma
constante conversão a Deus, estimulando,
ainda, o próximo a fazê-lo.
Isaías anunciava por Deus que a consolação
estava próxima. As Sagradas Escrituras, a
Tradição e o Magistério da Igreja nos
asseguram que temos a consolação, em meio a
todas as tribulação que nos afligem neste
conturbado século. O profeta anunciava “ao
coração de Jerusalém”; anunciam-nos hoje do
coração da Igreja, Corpo Místico de Cristo,
no qual estamos inseridos desde o Batismo. É
portanto do nosso coração que brota – e não
podemos impedi-lo – essa expressão do amor
de Deus para conosco, inspirados pelo Divino
Amor, que é a consolação.
O povo hebreu tinha a convicção de que os
seus pecados é quem o agrilhoara sob o
domínio babilônico. Suportou-o, contudo, na
esperança do resgate da eterna Aliança feita
com seus pais. Devemos, também, saber
compreender os desígnios de Deus e
distinguir quais são eles e o que provém de
nosso amor-próprio, de nosso orgulho, de
nossa imprudência, de todas as nossas
fragilidades que, muitas vezes, o maligno
nos faz entendê-las equivocadamente como
virtudes.
Com a tão recomendada resignação cristã, a
humildade de reconhecer nossas falhas e a
dignidade de buscar a reconciliação com o
próximo e, depois, com Deus, pelos
sacramentos da Penitência e da Eucaristia,
estaremos prontos para viver, intensamente,
a união mística que tantos santos
experimentaram e que Deus se delicia em
repartir conosco: essa convivência íntima na
fé e na fraternidade.
Que a Virgem Maria, silente em sua
concepção, confiante na Providência Divina,
inflamada de ardor pelo Santo Espírito, seja
nosso modelo para nos mantermos atentos e
fiéis à vontade de Deus. Pedindo sua
constante intercessão, recomendamos ao nosso
clero e queridos fiéis que assumam cada vez
mais convictos sua função na Igreja,
enquanto nos preparamos, neste Tempo
Litúrgico, para o que há de vir nos séculos
futuros.
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