Presença LMC na Causa Indígena


Uma das riquezas de compartilharmos nossa vida com o povo Arara é a partilha da fé e o respeito pelo que é Sagrado deste povo que vive em Rondônia, no município de Ji-Paraná, Terra Indígena Igarapé Lourdes.

O encontro com nossa religião cristã, católica, nos leva a olhar com respeito para a “religião” do nosso próximo, pois, ensina Mustapha Cherif "O maior desafio comum das religiões é devolver sentido, referências, valores à humanidade", e nós como Leigos Missionários Combonianos somos chamados nesta realidade a viver o que há de belo em nossa religião; em conseqüência solidarizarmos, e indignarmos nas injustiças infligidas aos povos indígenas.

Esta nossa presença nos levou a viver um momento único e especial junto deles, o “Encontro de pajés Arara”. Esse encontro motivou, valorizou e intensificou a presença dos pajés Arara, além de ensinar os jovens indígenas a importância religiosa desta figura que traz consigo a força de Deus manifestada no poder de cura e harmonização do homem e da natureza.

O Cacique Pedro Arara, um dos incentivadores deste “ Encontro de Pajés Arara”, motivou e convidou os Pajés da aldeia I’târap e os parentes para realizar este momento que representa a afirmação de uma cultura que acredita e valoriza a pessoa do Pajé. Homem detentor da sabedoria da mata e das “coisas de Deus e dos Espíritos” que proporciona aos indígenas harmonização com o seu “eu” , “comunidade” e a natureza.

Comentava Pedro Arara: “Nós, Arara ainda temos muitos pajés, mesmo que a gente não fique falando que tem, mas eles estão entre nós, são fortes, curam...e agora outros estão surgindo... Com este Encontro, a gente fica feliz porque mostra aos mais novos que nossa cultura está viva...eu fiz a minha parte chamando os pajés, depois, mais pra frente meus filhos vão fazer o mesmo, nossa cultura vai sempre existir se a gente valorizar os nossos pajés”.

O encontro durou três dias, cantaram em língua KARO músicas que “falam” acerca da natureza (águas, árvores, pássaros, peixes,..) e dos bons Espíritos. O Pajé Cícero cantava para que a comunidade confeccionasse os trajes típicos e ornamentos (saias, cocares, bastão...), e inspirados pintassem seus corpos com jenipapo e urucum simbolizando naqueles dias alegria, acolhimento, partilha do alimento e, sobretudo o valor dos pajés para a vida da etnia Arara.

As danças puxadas pelos pajés e as brincadeiras deixaram os indígenas mais velhos contentes por sentirem que a cultura e a religiosidade, mesmo com as influências da sociedade envolvente não sufocaram a essência do “ser indígena Arara”, homens e mulheres cientes da inteligência de Deus e da natureza manifestada pela presença forte e espiritual dos pajés. “eu me lembro do papai que rezava assim para mim, curava nossas dores, não dependíamos de remédio do “homem branco”, soprava na gente e logo saíamos andando, ele era pajé também”(dona Janete Arara).

Os jovens contagiados pelo clima festivo e ao mesmo tempo tão rico de simbologia e respeito pela cultura dançaram e receberam as orações sobre alguns deles, fazendo com que sentissem que Deus os cura através de “um” entre eles.

Embora os dias tivessem corridos com muita dança, brincadeiras, orações e pajelanças, durante à noite, não faltou um momento forte de reflexão sobre a situação da política indígena de saúde que afeta todos os indígenas que precisam do atendimento da FUNASA. Pajés e lideranças elaboraram um documento que foi entregue ao Ministério Público Federal onde consta algumas situações de desrespeito, mal-atendimento e morosidade além de caso de humilhação sofrido pela comunidade. Acreditam que através deste ato, serão tomadas as medidas cabíveis.

Como cristãos católicos, assumindo nosso batismo, somos chamados a ser profetas que gritam a verdade, neste profetismo, nos cabe muitas vezes como ferramenta de justiça a denúncia! Disse São Daniel Comboni: “A verdade e a justiça combatidas sempre triunfaram. Tenho uma confiança inabalável nesse Deus que é o único pelo qual expus e exponho a vida, trabalho, sofro, e morrei”. (Escritos de Daniel Comboni, 1452-pág.447)

André Machado (Pastoral Indígenista)